Urbanization

Nadando com a maré – Ben Hammersley sobre como sobreviver a megatendências revolucionárias

Our present day is unique, in Ben Hammersley’s view: a remarkably singular moment in our evolution as a species. Take the megatrend of digitalization, for example. We now possess quickly and constantly improving tools, the like of which we have never, ever had before. And that megatrend and others are truly global, meaning that the entire human population of the planet is experiencing their effects. That is, we are all dealing with changing work and social roles. We are all aware of the wonders of the Internet and growing urbanization. We also know that many scientists are warning us about the threat of climate change. So, for the first time in history, the people of Earth are united by knowledge and experience in real-time self-awareness. Despite that, there is major disagreement as to what is really going on, what it means, and what to do about it. In part two of this URBAN HUB interview, Ben Hammersley talks about this, and how we can successfully set a course towards a prosperous future.
Urbanization
Nossas cidades, nosso futuro - A urbanização, uma tendência que não mostra sinais de diminuição, mudará muito a forma como vivemos, trabalhamos e interagimos em nossas comunidades.
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Criado em 20/04/2018

“Via de regra, o amanhã será melhor do que ontem, mas, para que isso continue sendo uma verdade, muita coisa precisa mudar na forma como vivemos e trabalhamos – e, em certa medida, seremos obrigados a isso. O que me deixa otimista é que sabemos como resolver os desafios que enfrentamos.”

Ben Hammersley

Desafio: a miopia militante

Antes de podermos aproveitar plenamente as megatendências, precisamos superar alguns desafios significativos. O principal deles é a “nostalgia armada por um passado que nunca existiu”, descrita na primeira parte da entrevista. Não é a mera discordância sobre o que está acontecendo: é a recusa, intencional e reativa, em sequer considerar a questão.

De acordo com Hammersley, isso ocorre porque algumas pessoas se sentem ameaçadas pelos acontecimentos. “Culturalmente, há grupos inteiros de pessoas muito presas às formas antigas e tradicionais de pensar sobre a sociedade ou os papéis sociais ou sobre como empresas devem funcionar, sobre como devem consumir a mídia, sobre como devem se instruir, etc.”

Ben Hammersley, por exemplo, acredita que “os assim chamados contestadores das mudanças climáticas na verdade aceitam o problema, mas, para eles, é praticamente impossível pensar sobre as medidas que elas exigem. Eles desprezam tanto sua forma de viver que, em primeiro lugar, só conseguem lidar cognitivamente com isso negando o problema. Isso leva à supressão das evidências no clima ou no controle de doenças, o que permite a algumas pessoas não refletir sobre os problemas.”

“Estou começando a questionar o termo ‘desconsiderado’. Algumas pessoas não estão sendo desconsideradas, elas é que são teimosas e estão paralisadas.”

Ben Hammersley

Desafio: benefícios em desequilíbrio

A resistência reativa é intensamente reforçada pela distribuição desigual dos benefícios de se trabalhar a favor e não contra megatendências como a gig economy (economia sob demanda). Os benefícios variam de um local para outro.

Hammersley faz a seguinte colocação: “A forma como o futuro afeta você depende do país em que você vive. As leis de trabalho e os direitos civis são mais fortes em alguns países do que em outros. Por exemplo, em alguns países, se você está temporariamente desempregado, você não perde o plano de saúde, não passa fome, e não perde sua casa. Em outros, você está, literalmente, ferrado! Você vai à falência e as coisas podem dar muito errado.”

Toda sociedade precisa, portanto, buscar o equilíbrio social. “Quando o assunto é a economia sob demanda, normalmente falamos do ponto de vista da elite multinacional que trabalha com conhecimento e TI pesado. Para ela, a economia sob demanda é algo muito bom.” Mas, na visão de Ben, todos precisam se sentir vencedores, não só alguns.

Desafio: a falta de imaginação

De acordo com Ben Hammersley, tanto a miopia militante quanto o desequilíbrio nos benefícios podem ser vistos como efeitos de uma causa mais profunda: a falta de imaginação e visão do destino a que estamos sendo levados pelas megatendências e também pela falta de vocabulário e estruturas cognitivas e jurídicas para debatê-las e agir em relação a seus impactos.

Uma vez que ainda não desenvolvemos ideias e estruturas novas de que precisamos, estamos sujeitos a usar as antigas, que, na verdade, não servem mais. “À medida que o mundo acelera à luz das megatendências que estamos vendo, percebemos uma forte reação, o encanto do retorno imaginário a um passado mais simples, onde cada um sabia qual era o seu lugar.”

“Mas, quando se vive em uma era de mudança generalizada, uma reação da nostalgia militante faz você retroceder; relativamente falando, você está regredindo, ainda que esteja parado, pois todos os outros estão avançando.”

O desafio de enfrentar desafios

Dados tais desafios, estaria o futurista Ben Hammersley otimista em relação ao futuro? Sim, mas com cautela: “O que me deixa pessimista é que alguns países estão passando por um espasmo geracional dos últimos anos de poder político e econômico daquelas pessoas para as quais considerar tais problemas é cognitivamente inaceitável.”

Mas, na visão de Ben, as megatendências que nos tragam nos arrastarão, por bem ou por mal. “Haverá um movimento de avanço e recuo, mas, nos próximos anos, esperamos ver uma mobilização de apoio para lidar com tais megatendências com seriedade. Em muitos lugares, você quase consegue sentir a crescente pressão em favor de uma tomada de medidas construtivas.”

Em última análise, Hammersley está otimista. A resistência é inútil, por assim dizer, e o curso da história já nos move para onde precisamos chegar. É evidente que há muito trabalho a ser feito, e “muita coisa precisa mudar na forma como vivemos e trabalhamos, mas o que me deixa otimista é que sabemos como resolver os desafios que enfrentamos.” Para começar, temos as ferramentas tecnológicas!

Solução: abraçar a mudança

Do ponto de vista de Hammersley, uma das melhores formas de se preparar para o futuro é simplesmente começar a tomar as rédeas do presente. Como? Primeiramente, precisamos cuidar uns dos outros. “A sociedade precisa cuidar da sociedade. As pessoas estão conectadas a todas as outras. Para disseminar a mudança social no trabalho, isso precisa ser feito no âmbito político, onde nós, em comunidade, decidimos como e quais mudanças serão feitas.”

Em segundo lugar, precisamos de bons líderes. “O tipo de liderança política será crucial para o que vem depois. Alguns países dirão que sabemos que a economia sob demanda será difícil. Por isso nós, como sociedade, precisamos trabalhar juntos para encontrar uma nova identidade laboral. Afinal, é responsabilidade do governo. Ele é composto por pessoas que elegemos para fazer o trabalho administrativo em torno da infraestrutura coletiva que é o tecido de nossa própria existência.”

“Mas a verdade é que, em cada país, precisamos enfrentar esses problemas das megatendências.” Ou seja, não há como escapar do futuro, e ele já está acontecendo. Por exemplo, “estamos começando a ver não somente uma tendência social, como também uma tendência política para cidades densamente povoadas. É um esforço político tentando fazer as pessoas viverem em convivência urbana de alta densidade.”

A importância de palavras e ideias

Também precisaremos de novas formas de conceituar e debater as mudanças e suas ramificações. “Nossos cérebros são suficientes. Não precisamos de qualquer modernização cibernética de nossa cognição. Basta desenvolver um novo vocabulário e novas estruturas cognitivas e jurídicas para descrever o que está acontecendo e falar sobre isso.” 

Hammersley acredita que uma das formas em que isso ocorrerá é através da “mudança de nossas analogias e metáforas culturais tradicionais” para criar novos nichos de pensamento. “Prosperar em meio a todas essas mudanças também exige uma abordagem muito mais ampla e visionária: não podemos continuar pensando em tudo isso separadamente. Precisamos de uma abordagem holística, observando tudo com olhos bem abertos.”

 

Ben afirma que precisamos desenvolver novas formas de interpretar cognitivamente e debater coletivamente para onde as megatendências estão nos levando. Como podemos fazê-lo? Ele nos dá uma ideia através desse curto vídeo: “Mudar analogias é a definição da inovação”.

Esperar pelo imprevisível: o papel da serendipidade

O método de Ben em busca do futuro é simples. Precisamos prestar mais atenção ao que realmente está acontecendo ao nosso redor agora e estar mais abertos para descobrir o imprevisível em nossas observações. “Simplesmente, você não consegue se preparar para períodos de 20 anos. Você só consegue se preparar para amanhã – e isso somente questionando constante e ativamente tudo o que você faz hoje.” Em outras palavras, precisamos aceitar a serendipidade.

A serendipidade está no âmago da forma como Ben Hammersley lida com o futuro (veja o quadro). Os contos de fadas e histórias infantis estão repletos de serendipidade. Uma princesa, por exemplo, beija um sapo por simples gentileza humana e descobre, por surpresa, o amor verdadeiro. As crianças adoram esse tipo de narrativa, em parte porque ainda estão receptivas a tudo quanto a vida pode lhes trazer. Elas têm a expectativa da surpresa e ficam encantadas quando isso acontece. Ben Hammersley recomenda que aprendamos com as crianças, retornando à condição em que temos abertura para sermos constantemente surpreendidos.

“A serendipidade é um dos maiores motivadores da vida e do progresso pessoal e cultural. É uma das razões pelas quais as cidades são tão gratificantes. As cidades são máquinas que maximizam a serendipidade.”

Ben Hammersley

As cidades são o futuro da civilização

Também de acordo com Ben, as cidades serão o fator decisivo em nossa evolução. “As cidades são o futuro da civilização, e a abertura e flexibilidade próprias das cidades ajudarão a nos conduzir em direção ao desenvolvimento das estruturas cognitivas e culturais necessárias para usar nossa tecnologia com sabedoria.”

A boa notícia é que, apesar de não podermos evitar que as megatendências nos traguem, já temos todas as soluções de que precisamos para um futuro brilhante e sustentável. A megatendência da digitalização continuará nos proporcionando ferramentas cada vez melhores, e a megatendência da drástica urbanização nos oferecerá o ambiente ideal para juntos desenvolvermos novas e imprevisíveis visões, usando o poder das megatendências para fazer a magia acontecer.

 

Ben Hammersley é muito requisitado em todo o mundo. Na mesma época em que dava a entrevista ao URBAN HUB, também estava em Hyderabad, na Índia, discursando sobre alguns assuntos complementares, incluindo IA (inteligência artificial) e crime cibernético e como ambos estão interligados. Assista aqui.

What is serendipity?

Coined by Horace Walpole in 1754, the term “serendipity” is today often thought to simply mean a coincidence, good luck, or a happy ending. But the deeper meaning is a bit richer and more complex: the idea of discovering valuable things by accident.

There are three parts to this. One is the idea of actively seeking something: a solution, a place, an answer, or whatever. Serendipity is not a passive or lazy term – being actively in quest of something is a necessary component to the experience of serendipity.

The second part is the permanent potential presence of accident, in the sense that things happen all the time, all around us, that we neither plan, control nor foresee. That seems obvious, of course, yet who hasn’t been caught in the rain without an umbrella?

However, it is the third component that gives this word its power and magic. Simply put, you have to be open to the accidental or unexpected that inevitably occurs while on your quest. That also sounds simple, but given how easily distracted we humans can be, we often encounter something as we progress through our days, and completely fail to see what it is.

Ben Hammersley finds the term so useful because much of his work revolves around enticing and encouraging people to understand the future by more seriously considering what is already happening, right in front of their eyes. People can fill their heads with planning for the future to the extent that they miss out on what is already going on.