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Registros fabulosos: o Council on Tall Buildings and Urban Habitat

As pessoas gostam de olhar para cima e apreciar edifícios altos, e algumas gostam de espiar o chão lá do alto. Há algo simplesmente fascinante em arranha-céus, e há uma organização que os observa mais atentamente do que turistas.

O CTBUH (Council on Tall Buildings and Urban Habitat — Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano) periodicamente publica estatísticas e relatórios sobre os arranha-céus mais altos do mundo. Seus dados sobre o aumento das alturas tornaram-se um recurso importante para designers e construtores, que viabilizam a urbanização vertical.

Daniel Safarik, editor da revista do CTBUH e recentemente indicado para dirigir sua filial chinesa, apresenta a organização e nos dá uma breve mostra de sua história, do status quo e do futuro dos edifícios altos, bem como de seu papel na urbanização. 

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Marcos da sustentabilidade urbana - Hoje, o planejamento urbano cria marcos futuros para cidades que transmitem novas mensagens de sustentabilidade, escolhas ecológicas e uma forma responsável de viver.
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Criado em 23/02/2015

As raízes do CTBUH

O CTBUH foi fundado em 1969 na distinta cidade de Bethlehem, na Pensilvânia. O professor de Engenharia Estrutural, Lynn S. Beedle, da Universidade de Lehigh, percebeu que havia importantes pesquisas sendo feitas na academia, e, simultaneamente, observou uma tendência no crescimento dos arranha-céus, com a construção do World Trade Center, Sears Tower e do John Hancock Center, que utilizaram novas e diferentes técnicas de construção em aço.

O Sr. Beedle percebeu ser importante criar uma plataforma para que engenheiros estruturais e acadêmicos pudessem construir um conjunto de conhecimentos de referência. Atualmente, stakeholders de edifícios altos no mundo todo fazem parte do CTBUH, e promovem uma abordagem holística e interdisciplinar do estudo de arranha-céus e habitação urbana.

O objetivo atual do Conselho é continuar construindo seu conjunto de conhecimentos sobre edifícios altos, e explorar suas relações com o ambiente urbano. O CTBUH é fonte essencial para todos os stakeholders da construção.

Conheça o editor

Daniel Safarik é o editor da revista do CTBUH. Ele cresceu perto de Chicago, onde conheceu diversos arranha-céus, inclusive o Willis Tower — antigo Sears Tower e prédio mais alto do mundo entre 1973 e 1998. Curiosamente, seu avô trabalhou como eletricista na construção do Sears Tower. A foto de seu avô no 101º andar, onde não se via nada atrás dele e somente a cidade 400 metros abaixo, marcou profundamente a infância do editor.

O background exclusivo em jornalismo e arquitetura fizeram de Daniel Safarik o homem ideal para o CTBUH. Ali, seu trabalho envolve a redação e edição de comunicados de imprensa, livros e relatórios para pesquisa, e também de publicações técnicas e estatísticas em geral. Como se não bastasse, também é autor de seu próprio blog sobre arquitetura, chamado Unfrozen.

Ao ser questionado sobre qual é seu edifício preferido, Safarik mostra seus lados romântico e prático: “O Chrysler Building sempre vencerá a disputa no quesito da beleza — nada expressa a efervescência dos anos vinte e a engenhosidade americana como este edifício.” Mas, sendo natural de Chicago, não poderia esquecer suas raízes: “O John Hancock Center e o Sears Tower, em Chicago, são os que mais influenciaram meu desenvolvimento pessoal.”

Os desenvolvimentos dos quais arranha-céus dependem

Os arranha-céus da atualidade devem sua altura a sua história. Baseando seu exemplo em edifícios de uso misto, Safarik explica que os desenvolvimentos atuais foram possíveis graças às inovações do passado.

“Um número crescente de edifícios de uso misto deve sua existência e beleza, sobretudo, a dois desenvolvimentos arquitetônicos: outriggers (estabilizadores) e megaframes (megaestruturas).” Esse tipo de edifício requer um sistema estrutural que o mantenha estável, ou seja, que evite oscilações excessivas e desconforto durante ventanias e eventos sísmicos, e que também seja flexível o suficiente para adaptá-lo a diversas necessidades, que podem mudar ao longo do tempo.

Outriggers são o componente-chave para obter tal flexibilidade. Arranha-céus precisam de um eixo central muito estável e forte. Outriggers são estruturas rígidas que se estendem a partir do eixo central, construídos em cantilever a cada 10 ou 20 andares, aumentando a estabilidade lateral. Em alguns casos, os andares estão “pendurados” nos outriggers acima deles, permitindo interiores desobstruídos que não exigem elementos estruturais rígidos, tais como pilares.

Esquema do design usando outrigger

Megaframes, por sua vez, permitem aumentar a estabilidade a partir do exterior, reforçando a fachada da estrutura. Eles agem como exoesqueleto do edifício, e são especialmente importantes para a poesia, para as curvas e voltas das formas externas. Outriggers e megaframes são apenas dois dos vários desenvolvimentos que possibilitaram a construção dos mais belos e flexíveis edifícios.

“A probabilidade é que encontraremos mais conexões horizontais do que edifícios de 1 quilômetro de altura em cada cidade.”

Daniel Safarik

Diretor, Filial Chinesa, Editor, Revista do CTBUH, Council on Tall Buildings and Urban Habitat

Previsões para o futuro: cidades no céu?

O futuro nos reserva uma certeza: o aumento da densidade populacional urbana. A incerteza reside, porém, em como exatamente as cidades irão lidar com esta consolidação. Há visões intrigantes de cidades futuristas mostradas em filmes clássicos da ficção científica, tais como “Metrópolis” e “Blade Runner, o Caçador de Andróides”. No entanto, a opinião de um especialista em arranha-céus e urbanização como Daniel Safarik provavelmente é mais confiável.

De acordo com Safarik, a crescente urbanização provavelmente não resultará em maior número de edifícios espetacularmente altos, porém em mais edifícios de 20 a 50 andares. As pessoas precisarão de mais conexões nos níveis superiores. Para tornar a vida nos andares superiores mais atraente, os desenvolvedores terão de trazer muitas das comodidades existentes no térreo para os andares altos.

Isso significa que todas as necessidades e atrações disponíveis no chão terão de mover-se também para o alto. Mais pontes suspensas conectando os edifícios também ajudarão a fomentar as atrações de um edifício com base nas de seus vizinhos.

 

Mudanças na demanda por transporte

Em termos de uso de espaço e consumo de energia, a população mundial já cresceu para além dos limites possíveis em que toda família no mundo pudesse ter um amplo jardim cercado onde seu cachorro corresse livremente. Isso significa que a ocupação humana no plano vertical não é apenas uma opção, mas uma necessidade.

Pressupondo que necessitaremos de mais conexões entre os edifícios, isso resultaria, certamente, em um ambiente de transporte mais integrado. Safarik esclarece de forma sucinta: “Os transportes verticais e horizontais terão de convergir.”

Na proporção em que mais e mais pessoas venham morar nas cidades sua demanda por transporte aumentará, seja para deslocamento entre os edifícios, do metrô para o shopping, ou de casa para o trabalho. O advento dos sistemas de elevador de múltiplas cabines, tais como o MULTI, e seu potencial para deslocamentos horizontais, será um importante passo nesta direção.

 

Arranha-céus e o meio ambiente

Safarik também enaltece a tendência atual de combinar a necessidade logística da habitação vertical com a necessidade humana básica do acesso à natureza: o muro verde. A história dos muros verdes remete ao início dos anos 90, com o trabalho do ecologista e arquiteto Ken Yeang, que mostrou como um prédio pode suportar uma área verde maior do que o terreno que o comporta.

Muros verdes podem ser implementados na forma de jardins internos em prédios, tornando seu interior mais acolhedor. Com conclusão prevista para meados de 2015, o Shanghai Tower oferecerá vários destes jardins suspensos em átrios abertos com restaurantes, cafeterias e lojas de conveniência.

Em novembro de 2014, o CTBUH nomeou o edifício One Central Park, em Sydney, o “melhor arranha-céu do mundo” de 2014. O complexo levou os muros verdes para fora do edifício, recriando a aparência remanescente de antigos prédios universitários recobertos de videiras. A vegetação também exerce papel decisivo na estratégia de sombreamento do edifício.

Smart Building "One Central Park" em Sydney

O paraíso dos dados sobre arranha-céus

A missão do CTBUH é “disseminar informações multidisciplinares sobre edifícios altos e ambientes urbanos sustentáveis, para maximizar a interação internacional de profissionais envolvidos com a criação dos ambientes dos edifícios, e disponibilizar o conhecimento mais recente de forma proveitosa aos profissionais.”

As informações fornecidas pelo website Skyscraper Center do CTBUH também fascinam profissionais de outras áreas. Além disso, é um método de exploração de edifícios altos muito mais fácil do que aquele que Daniel Safarik admite ter usado na infância: “Quando criança, eu costumava subir no aterro sanitário de minha cidade para vislumbrar ao longe a paisagem de Chicago.”

New York Chrysler Building:
Image 1: Photograph “New York Chrysler Building” by Flickr User Jacob Bøtter, CC BY 2.0

John Hancock Building:
Image 2: Photograph “John Hancock Building” by Flickr User Kyle Monahan, CC BY 2.0

Sears Tower:
Image 3: Photograph “Sears Tower” by Flickr User Allan Henderson, CC by ND 2.0

Sears Tower:
Image 4: Photograph “Sears Tower” by Flickr User Neal Jennings, CC BY-SA 2.0

Shanghai Tower:
Image 5: Photograph “Shanghai Tower” by Flickr User ronghualu, CC BY-ND 2.0

One Central Park Sydney:
Image 6: Photograph “One Central Park Sydney” by Flickr User Rob Deutscher, CC BY 2.0, Design architect: Ateliers Jean Nouvel. Collaborating architect: PTW Architects